segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

RECIFE AO RIO DE JANEIRO (ANGRA)

Dia 14/11/2010, voltei a Recife para trazer o barco para Angra, cheguei ao Cabanga às 11 horas da manhã, comecei a preparar o barco para no dia seguinte sair rumo a Salvador na primeira maré. As 10.30 do dia 15/11, segui meu rumo, 400 milhas na minha proa. Naveguei em orça apertada calçado no motor com ventos de 15 a 20 nós, até as 17 horas, o vento torceu um pouco, comecei a velejar. À noite o vento torce mais, agora traves, sigo velejando muito confortável a 18 milhas da costa, apesar do grande movimento de pesqueiros e navios. O primeiro dia foi só lanche e frutas. Às 10.30 horas faço o balanço das primeiras 24 horas, naveguei 154 Milhas. Consegui dormir com o despertador acordando a cada vinte minutos. Amanheceu, o vento rondou para três quarto e diminuiu agora 5 a 7 nós, vou ajudando no motor. Dia bonito ensolarado e muito quente, ao meio dia fiz almoço simples, arroz com lingüiça. À tarde o vento voltou, velejando de novo, aproveito durmo um pouco, depois vou para a leitura, estou lendo o livro O MELHOR ANO DE NOSSAS VIDAS. À noite o vento cai quase zerando, encontro uma corrente contra. Com todos os panos em cima calçado no motor, sigo navegando. Às 10.30 Horas fecho a cingradura das ultimas 24 horas, 143 milhas. Neste terceiro dia o vento continua a favor mas fraco até Salvador. Estou sem luz de navegação, vou consertar quando chegar ao CNB. Em frente ao farol da Barra, alguém me xinga no radio por eu estar sem luz de navegação, mesmo estando com uma lanterna na mão e um strobo manual sempre sinalizando. Acho que o cidadão não sabe que possa queimar em viagem, talvez ele queira que eu suba no mastro a noite navegando para o conserto. Chamei no radio o CNB, avisando da minha chegada, os guardas me ajudaram a atracar. Dia 18/11, as 1.30 da madrugada com 408 milhas desde Recife. O CNB estava murcho, ninguém conhecido só barco de gringo. É muito bom estar no CNB, mas com os amigos que sempre encontramos aqui, na ida para recife havia uns vinte barco conhecidos, estava muito bom. Na sexta feira chegou um barco Brasileiro, do Rio de Janeiro, veleiro Bom Free, no comando estava o André Freitas e o amigo Julio (Juba) da web TV, esportes radicais WWW.actionbrasil.tv muito legal vale apena acessar. Minha tentativa de sair domingo fracassou, tive que retornar. Saí às 16 horas, fui ao Bahia Marina para abastecer, e às 17 horas com vento de traves de 20 nós corrente favorável de 2 nós, tomei meu rumo, uma maravilha, mas o piloto insistia em entrar em Stand by, o que há com o Toni Tornado sempre gostou de timonear! Naveguei oito milhas e retornei, pois sem piloto e uma navegada em Solitário de cinco dias seria muito puxado. Liguei para o Douglas que trabalhou no meu Barco instalando um novo equipamento, marcamos para as seis horas do dia seguinte para averiguar o problema. No retorno fazendo uma retrospectiva do que aviamos feito, matei a charada, liguei de novo ao Douglas falando o que eu achava que poderia ser. As 20.30 cheguei ao CNB. Tomei um banho fiz um lanche e fui dormir, mesmo sabendo que o horário marcado não seria cumprido, pois estamos na Bahia, e aqui é sem estresse, acordei as 5.30. As 7.30 chega o Douglas, e as minhas suspeitas se confirmaram, ao passar inúmeros fios no armário do Painel, afrouxou o cabo do barramento que vem das baterias para o painel elétrico. Só custei a perceber que era problema de alimentação porque meu termômetro é a geladeira que está direto nos bancos, e ela não parou de funcionar. Quando o piloto exigia mais carga ele desarmava. Tudo resolvido agradeci ao Douglas e me despedi As 8.30 horário da Bahia, dia 22/11, sai rumo ao Rio de Janeiro (Angra). A motor e com a grande e genoa em cima, vento em orça. Duas horas mais tarde o vento aumentou e deu uma torcida melhorando, agora é só velejando. Ao meio dia esquento o que sobrou do dia anterior. A tarde melhorou, o vento agora é través. Meu primeiro ponto é traves de Belmonte. Vou abrindo distancia da costa. À noite o vento é de popa de 15 a 18 nós. Sigo em asa de pombo. Amanhece vai ser um belo dia de sol, dormi muito bem, pouco movimento nenhum pesqueiro, que maravilha. Meu balanço das primeiras 24 horas, 166 milhas. Sempre em asa de pombo, aproveito o dia para tirar uns cochilos, o novo Radar esta funcionando muito bem, apesar de eu estar em fase de adaptação, pois o outro modelo muda muito as funções, mas estou me saindo bem. Meu almoço hoje pizza, não estou a fim de encarar a cozinha, estou com dor de cabeça, está me incomodando um pouco, talvez seja o calor ou o sol em excesso que peguei em Salvador, tomei um banho frio tomo um comprimido, fico horas sentado na roda de leme, sentindo o vento bater nas costas, muito confortável. Ao anoitecer melhoro. Janto os três pedaços de pizza que sobrou do almoço. O vento diminui um pouco, mas ainda consigo andar a seis nós, também vem uma chuva fina, durmo um pouco, logo toca o alarme do radar. Desta vez pesqueiros pela proximidade de Abrolhos. As 5.30 horas da manhã, passo no traves de Abrolhos ainda com chuva fina, consigo ver as Ilhas e o farol, não chamei o radio farol pois era muito cedo, e as previsões que tinha estava tranqüilo, no meu caminho ainda teria o Rio Doce ou Vitória para arribar se fosse o caso. Marquei meu próximo ponto para o través do Rio Doce. O vento aumenta, continuo em asa de pombo, vento de 18 a 20 nós velocidade oito nós. Nestas 24 Horas naveguei 169 milhas. Ao meio dia faço um almoço que posso considerar o pior que saiu na cozinha do Entre Pólos, Carne assada no forno, em Salvador comprei contrafilé, de bela aparência. As aparências enganam, acho que este boi deve ter subido as escadarias do Bonfim muitas vezes, pois nunca tive a oportunidade de comer uma carne tão dura. O céu escureceu muito, o bicho vai pegar, preparo tudo para não ter surpresa, vela Grande no segundo riso, bem na hora, mais chuva e vento, começa a relampear, enrolo um pouco a genoa, e o tempo aperta mais, recolho toda a genoa, e continuo voando baixo, a visibilidade diminui muito. Sigo nestas condições por duas horas mais ou menos, dou uma revisada na grande e vejo duas talas saindo da bolça, e a capa da vela com um rasgo de uns trinta centímetros na ponta da retranca. Quando fiz o rizo não vi que a adriça na hora de caçar, passou por traz do tubo de alumínio que mantém a capa armada, não tem outro jeito, tenho que baixar a grande. Liguei o motor aproei no vento, e uma tala a maior saiu voando, já era. Botei o barco no rumo abri um pedaço da genoa sempre com pau de spi e segui navegando. A noite a Vitória Radio da o aviso de vento forte na área DELTA, força 5 a 7 ventos de NE a NW, valido até as 22 horas do dia 25/11, dia seguinte. Acho que o aviso veio atrasado, pois o bicho tava pegando desde o meio dia. Toda a noite foi só de grande meia enrolada, e tome vento e chuva. Amanheceu, consegui dar uns cochilos, tomo café as 8.30 tiro a singradura, 156 Milhas, vento agora diminuiu 18 a 20 nos, abro toda a genoa. Um navio vem em minha rota pela popa, fico atento para manobrar mas a duas milhas é ele quem manobra, desviando e passando a meia milha do Entre Pólos. O vento aperta, enrolo a metade da genoa, 25, 28, 30 nos, e tome chuva. Vou para a cabine deito no sofá, procuro sinal na TV e consigo, mas só tem porcaria, dou uma cochilada e acordo na hora do almoço. Faço up grade na sobra do dia anterior, consegui fazer um milagre na carne da Bahia, ficou razoável nem os peixes comem, pois não sobrou! O vento volta para os vinte nós e sem rajada, a chuva também diminui um pouco, abro toda a genoa. À tarde o vento vem para 15 nós, abro a trinqueta em asa de pombo assim deixo a vela grande guardada na capa. De noite a chuva para, quanto mais me aproximo do São Tomé mais pesqueiro, tive que desviar 30 graus para não subir na rede, pois quando eu estava perto o pesqueiro apontou a rede com o farolete. A noite vai ser difícil de dormir. Contornei o banco São Tomé as 23.30, tirei o pau de spi, seguindo em um través com vento de 15 nós. O movimento de pesqueiros diminui, ou fico fora da rota deles, pois há no meu través de BE, varias luzes. As duas e trinta da madrugada acordo com o barco quase parando, o vento agora com 10 a 12 nós é quase na cara. Recolho a genoa e sigo a motor. Sempre com vento na cara, às vezes aumenta para 15 nós, mas o mar esta calmo com ondas baixas, o motor rende bem, tiro a singradura 165 milhas. Meio dia pizzaria do entre Pólos abre os trabalhos. Às duas horas faço o farol de Cabo Frio, consigo orça apertada, mas com vento fraco ajudo no motor. Vou abrindo em um rumo que deixo as ilhas rasa e Redonda a meu Boreste. Começo meus turnos de cochilo, pois sei que de noite vai ser difícil, vou passar perto de muitas Ilhas e pesqueiros, alem de navios em frente ao Rio de janeiro. Passo em frente ao Rio às 23.30 Horas, por dormir muito pouco quase não consigo ficar acordado, por varias vezes molho a cabeça e o rosto com o chuveirinho de popa, tenho que ficar em pé ou sentado, se encostar a cabeça durmo. Resolvo cetar o alarme do Radar de três milhas para seis, pois estando no modo temporizado, ele rastreia a cada cinco minutos, quando começa a rastrear pega a orla do Rio, e soa o alarme que só para se eu descer até ele na mesa de navegação, e apertar o botão confirmando. Assim a cada cinco minutos eu descia para confirmar, era só encostar a cabeça que dormia entre cada soar do alarme. Às 7 horas entro na Bahia da Ilha Grande, cansado e com dor nas pernas de tanto descer a escada do barco, para apertar o botão do Radar. Com a ansiedade de chegar ao Sitio Forte o sono passou, desliguei o alarme e pude ficar sentado com a cabeça encostada para descansar. Sempre uso o relógio despertador, mas pelo cansaço não quis arriscar, pois ele toca e para quanto acaba o tempo, e eu estava muito perto da costa, não poderia entrar em sono profundo. Cheguei ao Sitio forte às 10 Horas do dia 27/11, nas ultimas 25 horas naveguei 177 Milhas em um total de 833 desde Salvador, cinco dias e uma hora. Empolgado esqueci o cansaço e comecei a faina, organizei o interior limpei a cozinha, lavei o banheiro com água quente aproveitando para tomar um bom banho. Resolvi fazer almoço, ainda tenho aquele contra filé duro da Bahia, vou tentar salvar. Cortei em cubos, fritei bem com tempero uma cebola, depois botei a cozinhar por bastante tempo, coloquei uma lata de seleta de legumes, ficou uma delicia, acompanhado com arroz salada e uma cerveja bem gelada, como era uma operação de salvamento fiz toda a carne, que sobrou para o almoço do dia seguinte. À tarde tirei a vela grande guardei em uma das cabines de popa, tirei a capa da vela para levar a Porto Alegre e consertar. À tarde o movimento aumentou aqui no Sitio Forte, tem umas lanchas grandes com Jet, e todos se divertem andando ao redor dos veleiros, que agora somos nove, fazendo aquelas marolas maravilhosas que todo velejador odeia. À noite conversei com a família via Skype, depois vencido pelo cansaço, apaguei na calma enseada do Sitio Forte. 28/11 amanhece, tomo meu café e sigo meu rumo a Marina Bracuy, consigo uma vaga, acerto tudo na administração, recebo a visita do Enio do veleiro Casagrande, que a muito tempo não via. Meio dia ressuscitei a sobra do almoço anterior, que parece ter ficado ainda melhor. Muito calor, a tarde tirei as escotas e o motor de popa, guardei tudo dentro do barco, lavei o convés para tirar o sal da viagem. No final da tarde, fui ao veleiro Casagrande http://www.veleiro.net/veleirocasagrande/tripulacao.htm tomar um cafezinho com o Ênio e a Lú. Voltei para o Barco mantive tudo fechado, pois os pernilongos estavam descontrolados, conversei com a Cleuza por algum tempo via Skype, dedetizei o barco e fui dormir. Quem dorme com este alvoroço de mosquito, eu me tapeando o tempo todo para me livrar das picadas e sinfonia nos meus ouvidos, noite muito longa. Com a noite mal dormida dei uma esticada na cama, acordei às 10 Horas. Botei o Bote na proa e coloquei capa em tudo. Almocei a ultima pizza, e às 15 horas veio a minha condução para me levar ao aeroporto do Rio, Hora de voltar para casa. Em janeiro volto a bordo com a família, e depois retornarei a Porto Alegre, mas este será outro Diário!

3 comentários:

  1. Muito boa narrativa, Gigante! Foi um prazer le-la! Somos tripulação do veleiro Kadiwéu, fundeado próximo a voces em Sítio Forte e a descoberta do seu blog foi uma ótima escolha de leitura para nos entreter. Um Abraço e Bons Ventos

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  2. Caríssimo Comandante Miranda, a narrativa é tão detalhada, que me senti a bordo do novo Planeta. Apenas para colaborar com a exatidão, o Portocel, da Aracruz Celulose, fica ao NORTE de Vitória.
    Por que não arribou para Vitória para cevarmos um amargo? Sim, devido à correria para chegar em Angra. Meu sonho é comprar um veleiro, coisa que pretendo com minha volta ao Pampa, este ano.
    Bons ventos sempre,
    Glober Knuth.

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  3. Amigo Comandante! Parabéns pela grande obra do Veleiro Entre pólos, ficou impecável na fabricação, gosto de veleiro desde de pequeno, e fiquei bastante entusiasmado com a montagem, e em pouco tempo, já estava pronto para velejar pelo mundo. Parabéns!!!

    Grande abraço,

    Felipe

    P.S: Onde vocês estão no momento? As fotos ficaram bacana... Se tiver mais, vai ser um prazer em poder aqui em terra fazer parte dessa grande viagem ao redor do mundo.

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